Bem Vindo

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sou de barro

 
 Não ache que você consegue  
entender-me com meia hora de prosa.
Sou tal qual moringa d’água.
Simples à primeira vista,
como uma boa cerâmica,
mas quem me vê assim,
só querendo matar a sede, só de passagem,
não faz ideia da trajectória do meu barro,
nem das tantas vezes que desejei mudar o meu destino.
Sou a contra-história, o anti-herói,
estou além da superfície.
Sou as mãos que me moldaram,
as infindas voltas no torno em busca da forma ideal,
a descoberta de que não existe forma ideal,
sou os fragmentos indesejáveis 
que foram ficando pelo caminho,
os que ainda carrego comigo,
sou o que seca devagar, no tempo,
o que desidrata, encolhe, retrai,
sou o que finalmente amadurece,
o menos quebrável, 
menos frágil.
Sou a antítese, 
o que estatela,
o que fragmenta, 
o contrário,
o que acolhe, 
o que reserva...
Sou o som seco, 
o estampido, a percussão.
Sou a música, 
sou a orquestra de barro.
Sou exposta ao tempo, 
sou o ar que contenho,
a água que conservo, 
o fogo que me endurece,
a terra de onde vim...
Não ache que olhos que só têm sede vão me ganhar.
Sou de quem me decifra.
E não sou uma só.
Sou tantas....

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