Bem Vindo

terça-feira, 11 de março de 2014

Sou um jardim extemporâneo

 
 Sou um jardim extemporâneo 
onde as memórias
desabrocham de vez em quando,
sem cerimónia e totalmente fora da estação.
Tem dia que o sereno da saudade
cai tão morno e perfumado sobre mim,
que um beija-flor ávido por ração
e descanso pousa nos meus ramos e fica ali,
estudando a paisagem e se balançando
ao sabor da brisa suave 
que os meus “ontens” ainda sopram.
Tem dia que a minha saudade floresce
como uma primavera inopinada,
e o mesmo beija-flor de outrora vem
sobrevoar os meus canteiros,
remexer as minhas histórias e
sugar a seiva doce das recordações
que eu guardo junto ao peito.
Não há vento e nem chuva capaz de demovê-lo
desse bater de asas ao meu redor.
E assim, segue ele em sua busca indiscreta
por segredos escondidos em meus estames,
como pólen do tempo,
bebericando doçuras entre pétalas
descerradas em manhãs que ficaram para trás.
Então, eu o afugento:
“Voe, beija-flor, voe!
Voe e me permita inventar outro destino”!
E, quase obediente, ele voa para longe...
Voa, mas sempre volta.
Volta sempre que as sementes esquecidas
ao chão germinam e trazem 
viço ao que parecia morto,
e dão novas cores ao que desbotou 
com o passar do tempo.
Ele volta sempre que uma flor nostálgica
se abre dentro de mim e lança o
seu perfume através dos desvãos da minha alma.
E, quando isso acontece, 
eis que, de flor em flor,
com suavidade e leveza, 
aquele beija-flor
vem zunir suas asas junto aos meus desejos
e beijar os meus pensamentos distantes
com a máxima ternura e delicadeza.
Lembrança boa é assim:
tem o cheiro, o gosto e a textura
de quem foi embora para sempre,
sem jamais se deixar ser esquecido.

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